segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Quem mandou querer andar sobre 2 patas ?

desvios

Olha, não tem muito jeito. Ninguém tem a coluna retinha. As vértebras não conseguem ficar no lugar a vida inteira. Depois dos 30, então, teimam em desviar pra valer.

Mas calma. Coluna um pouco torta não causa, necessariamente, as temidas dores nas costas. Só 5% delas são causadas pelas vértebras. A maioria tem origem muscular. Umas e outras, porém, são herança de um antigo atrevimento da humanidade.


Quem mandou querer andar sobre duas patas?
Nos anos 40, um grupo de ortopedistas ingleses e americanos resolveu, num estudo conjunto, medir o que chamaram de “curvatura lombar” de mais de mil “voluntários saudáveis” — sem dor nas costas, bem entendido. Assim, fizeram a média e divulgaram, nos quatro cantos da Terra, um padrão de normalidade, conhecido como ângulo de Fergunson. Segundo ele, para ser normal, a curva lombar devia ser de 47 graus. Acontece que, nos quatro cantos da Terra, os indivíduos saudáveis não são iguais.

A coluna tem suas curvaturas naturais. E o grau dessas curvas varia de lugar para lugar, de raça para raça. Um americano típico tem bumbum chato porque suas vértebras lombares formam um ângulo menor — ou seja, mais reto — do que aquele padrão de normalidade. Já os três povos mais significativos no Brasil — os índios, os judeus mediterrâneos e os negros — estão numa situação oposta, porque seu ângulo é bem maior, em torno de 53 graus. A lordose, quem diria, é a razão do bumbum arrebitado da mulher brasileira. Mas o nome lordose, que não indica doença, assusta o ouvinte, quando ele está à procura de uma causa para as suas dores lombares.

É um absurdo achar defeito o que é normal”, alerta o cirurgião ortopedista Aloysio Campos da Paz, que dirige, há 19 anos, o Hospital de Doenças do Aparelho Locomotor, conhecido em Brasília como Sarah, numa homenagem à ex-primeira-dama Sarah Kubitschek, que ajudou a fundá-lo.“Existem muitos mitos nessa história de costas retas”, diz Campos da Paz. Não quer dizer que é certo ser corcunda. Mas um pequeno desvio aqui, outro ali, quase todo mundo tem. E quem ainda não tem, pode vir a ter.”
Envelhecer é curvar-se. Não é à toa, é uma adaptação: o coração já não aguenta passadas tão rápidas; o cérebro deixa de ser tão veloz nos seus reflexos. As vértebras, então, puxam o freio e obrigam o sujeito a levar a vida num ritmo mais lento. No extremo oposto da vida, na infância, as costas são mais retas e extremamente flexíveis, topam qualquer cambalhota

Quem está aprendendo a andar está sujeito a quedas e tropeços, que só um tronco flexível pode suportar. É no meio desse caminho, porém, que as pessoas mais reclamam de dor no pescoço, dor nos quadris. No Brasil, os consultórios recebem 4,63 milhões de pacientes com esse problema, todo ano, segundo o Ministério da Saúde. Oito em cada dez queixas são de gente entre 30 e 50 anos de idade.

Só que, em 95% dos casos, os culpados não são os desvios. Por trás da maioria das dores estão músculos. Ligados às vértebras, eles nunca relaxam. Ainda bem. Como, por incrível que pareça, ainda não estamos acostumar a ficar em pé, sem os músculos cairíamos como bonecos de pano. Às vezes, porém, a musculatura exagera na tensão. Daí, aperta os ramos dos nervos que saem da coluna. Estes são mais finos do que um fio de cabelo, mas dóem que não é fácil.

Aquele hominídeo que ficou em pé, há 4 milhões de anos, não foi castigado por essa ousadia. Ele vivia trinta anos, no máximo. E a sua coluna conseguia ter essa mesma vida útil na fatigante posição vertical. Além disso, o corpo humano criou um reforço muscular. Isso mesmo. As vértebras não nos mantêm erguidos sozinhas. Uma série de músculos também nos sustenta, principalmente os do abdômen e os das nádegas.

Barriga flácida é meio caminho andado para as costas nos torturarem”, diz a fisioterapeuta Zilda Aparecida Palhares, responsável pela rotina de exercícios do presidente FHC, desde que ele apareceu em fevereiro passado, no Hospital Sarah de Brasília, com dores fortíssimas. “Ele é disciplinado e nunca reclama”, fala sobre o seu ilustre paciente. Aquele hominídeo, no entanto, seria dispensado das aulas de abdominais. Predador, ele corria atrás de sua caça e mantinha excelente forma física. “Dor nas costas é um mal moderno, afirma o reumatologista José Knoplich, presidente do Centro Brasileiro de Estudos da Coluna Vertebral, em São Paulo.

A vida média atual do brasileiro é 65 anos. Aos 30, ele ultrapassa o prazo de validade de sua coluna, por assim dizer. E, pior, fica cada vez mais tempo sentado. Indiretamente, até a mais confortável poltrona provoca sofrimento. Primeiro, porque o estilo sedentário promove a flacidez e a coluna perde o auxílio muscular. “Além disso”, completa Knoplich, “quando estamos sentados, a pressão sobre as vértebras aumenta 50%”.

O estresse diário agrava a situação, deixando os músculos tensos. Desse modo, eles ficam enforcando os nervos. Existem remédios para relaxá-los. Mas têm tantos efeitos colaterais, que não devem ser tomados sem consulta médica. “Até porque são paliativos”, diz a fisioterapeuta Zilda, que também não é fã das massagens. “Elas soltam os músculos naquele instante. Depois, a pessoa pensa nos problemas e, em segundos, os músculos se contraem de novo.” Para ela, o melhor remédio é cada um aprender a relaxar, com alongamentos que possam ser feitos até no trabalho.


O ortopedista paulista Haruo Nishimura é outro crítico dos massagistas. Para ele, que fez fama tratando do ex-presidente João Baptista Figueiredo em 1984, só médicos podem mexer nas vértebras: “Já atendi gente que ficou paralítica depois de uma massagem”. Nishimura trata hérnias de disco manipulando a coluna dos pacientes — como a atriz Cláudia Raia, que já teve duas hérnias. Ela exagera na ginástica”, diz o médico da estrela. “Isso é tão perigoso quanto o sedentarismo.”


Às vezes, o bisturi é inevitável para curar a hérnia. Foi a salvação do próprio Figueiredo em 1985. “Mas, hoje, ele realiza cortes que nunca ultrapassam 3 centímetros”, conta o cirurgião Marcos Masini, do Hospital Sarah. “O paciente tem alta em dois dias e, passado um mês, leva uma vida sem restrições.” Isso tudo graças ao avanço de microcirurgia, a cirurgia feita com a ajuda do microscópio. A técnica ainda não resolve as entorses, quando os pontos de contato entre as vértebras se esbarram e incomodam. Mas a Medicina vai chegar lá.


Fonte: Revista SuperInteressante (Abril/1995) com "grifos nossos"



2 comentários:

  1. Olá participem do blog

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    Blog feito pra você se divertir com a besteira dos outros! Virem membro e começem a postar!

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