segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Assim se entorta a humanidade

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A evolução e os problemas da coluna.
Entre oito e cinco milhões de anos atrás, um suposto ancestral comum do homem e do chimpanzé vivia de quatro.


Sua coluna era um tubo rígido, que não sustentava o corpo — servia apenas de elo entre os membros superiores e inferiores.

Há quatro milhões de anos, porém, ele libertou as patas dianteiras do chão. Tornava-se o Australopithecus afarensis. Como? Curvando a ponta inferior da coluna, empinando as nádegas. Este hominídeo mal sabia caminhar direito só com os membros inferiores — andava com os pés para fora.
Já faz 1,5 milhão de anos que as vértebras deram uma nova empinada, estufando o peito. Desse jeito, conseguiram erguer completamente o tronco. Surgia o Homo erectus. O homem ficou de pé.

Nesses mais de 1 milhão de anos, o ser humano ainda não se adaptou a ser bípede. Ele até aguenta essa postura por duas ou três décadas. Depois dos 30, a situação pode se tornar cada vez mais insuportável.
A coluna é parte de um sistema com nervos e músculos, que disparam a dor à menor tensão.

Parece uma pilha de ossos. E é. Mas as 33 vértebras da coluna são tão bem empilhadas que a menor mudança no ângulo de uma delas pode fazer a maior diferença. Basta que um nervo seja pinçado e pronto: por menor que ele seja, vai torturar o cidadão. O equipamento de sustentação do corpo humano é formado ainda por músculos. Se um músculo se contrair um pouco mais, depois de um dia de trabalho complicado, poderá também contrair um nervo, que terminará dolorosamente inflamado.

A região mais frágil
Lordose cervical é o termo científico da curvatura natural das vértebras para fora. Sem ela, nossa cabeça ficaria caída, olhando para o chão, como se andássemos de quatro. Essa área próxima ao pescoço é a mais flexível. Para possibilitar tanta movimentação, passam por ali muito mais nervos do que nas outras áreas — nervos que, ao menor aperto, causam sofrimento. Por isso, é uma área frágil.

Os amortecedores
Compostos por um anel de cartilagem com um núcleo gelatinoso, os discos intervertebrais amortecem o impacto entre as vértebras. Como são solicitados a todo instante, tendem a se desgastar com o tempo e causar problemas — as temidas hérnias.

A área de proteção
Cifose dorsal é outro palavrão que designa mais uma curvatura natural, dessa vez para dentro, necessária para equilibrar o tronco erguido do homem bípede. Suas vértebras, de tamanho intermediário, são inflexíveis. A rigidez se explica: elas fazem parte da caixa toráxica, que guarda e protege dois órgãos vitais — o coração e o pulmão.

Os mensageiros da dor
A coluna funciona como um tronco central, de onde partem nervos para comandar os movimentos de todo o corpo. Há também um conjunto de nervos encarregados de mexer este próprio tronco central. São vias de mão-dupla: comunicam as ordens do cérebro, como “curve-se”; ao mesmo tempo, mantêm o cérebro informado sobre a posição das vértebras, dando a consciência do tipo “eu agora estou sentado”. Qualquer nervo, porém, envia mensagens de dor, quando comprimido. As duas áreas flexíveis da coluna — a lombar e a cervical — são as mais enervadas e, portanto, as mais sujeitas a dolorosas encrencas.


A zona de sustentação
As vértebras lombares aguentam a maior parte do peso corporal e, por isso, são de cinco a seis vezes maiores que as cervicais, que têm de sustentar apenas a cabeça. Elas formam a segunda curva para fora, a lordose lombar, que na verdade foi a primeira das curvas adquiridas na evolução — aquela que permitiu aos humanos erguer o tronco.

O que os pés têm a ver com os ombros
Uma nova terapia trata o corpo todo como uma “cadeia de músculos”.
Uma dor nos ombros é uma dor nos ombros para a fisioterapia tradicional — que, no caso, opta por exercícios dirigidos a essa região específica. Mas, de acordo com uma nova técnica de tratamento, a dor nos ombros pode ser um calcanhar que pisa mal. Ou, quem sabe, um quadril fora do prumo. Essa linha é a RPG, sigla de Reeducação Postural Global, criada em meados dos anos 80 pelo fisioterapeuta francês Philippe Souchard, professor da Universidade de Saint Mont.

“A ponta de um músculo está ligada à do músculo seguinte”, explica a fisioterapeuta paulista Silvana Ciociorowski. “Assim, a musculatura forma uma cadeia. Se a perna se contrai, a cabeça tende a entortar e, com isso, a sua região dói.” Ela é uma das pioneiras em RPG no país, que hoje já soma quinhentos especialistas.

A técnica consiste em ensinar posturas, que trabalham o corpo dos pés à cabeça, colocando tudo no lugar. “O resultado é mais lento, porém efetivo, porque não nos limitamos a aliviar a dor local”, explica Silvana. Ela só faz um alerta: “Quem aplica RPG é sempre um fisioterapeuta, com pós-graduação orientada pelo próprio professor Souchard. No Brasil, muita gente usa o nome RPG, sem ter diploma.”

O olhar clínico
Segundo o neurocirurgião Marcos Masini, só 2% dos pacientes necessitam de operação. “Mas, mesmo quando o problema é tensão, a consulta médica é fundamental para se criar um programa eficiente para cada caso.”


A ginástica
No final, qualquer paciente é obrigado a fazer exercícios. “Quem foi operado também deve fortalecer os músculos”, diz a terapeuta Zilda Palhares. “Senão, terá uma recaída.”

O choque contra a dor
Um dos avanços para atenuar o sofrimento são aparelhos que emitem ondas elétricas. Eles dão pequenos choques capazes de bloquear a mensagem que leva ao cérebro a sensação dolorosa.

Sem impactos
Para quem nem consegue fazer exercícios direito, o jeito é fazê-los na piscina: a água diminui a força da gravidade e, portanto, o impacto sobre as vértebras doentes.



Fonte: Revista SuperInteressante (Abril/2005)



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